3 de setembro de 2023

O amor e seus não-clichês



Meu amor Luiz,


Você mais do que ninguém sabe que eu não dispenso um filme ruim, nosso nome inventado para aquela categoria de produções também conhecida como água-com-açúcar: sempre tem um casal protagonista, um tempero que envolve um tanto de drama, outro tanto de riso… quase sempre um bocado de clichê de qualidade duvidosa, mas inevitavelmente a referência às tais “borboletas no estômago”.

Livros, poesias, filmes e séries tentam nos ensinar a identificar o amor de nossas vidas por meio dessa metáfora tão visual: um incômodo dos bons de sentir, uma ansiedade e insegurança que ao mesmo tempo também é coragem e excitação - a própria definição da tal paixão.

Eu esperava ansiosamente a oportunidade de sentir tudo isso, até que te encontrei.


Mas se tem algo sobre o qual as tais produções culturais estavam certas, não era sobre o quanto as borboletas no estômago são essenciais para a construção de um amor verdadeiro e sim sobre o quanto uma reviravolta faz qualquer história melhor. Então lá vamos nós:

Quem não conhece nossa história, provavelmente a essa altura da nossa celebração, já tenha recebido este spoiler, mas aqui, para o nosso enredo, é importante que eu diga também: eu não me apaixonei por você. Não à primeira vista, nem quando você se declarou tão corajosamente.

E foi por ansiar tão cegamente sentir tais borboletas no estômago que eu quase perdi a chance de reconhecer o amor.

Diferente da paixão, acho que para o amor não há metáforas universais porque ele é o mais singular dos sentimentos.

Eu, por exemplo, soube que te amava quando, ainda no comecinho do nosso relacionamento, senti sussurar em meus ouvidos uma vontade travessa de criar uma criança contigo só pra que ela herdasse seu lado engenhoso e curioso (ou maker boy, como diria uma de nossas queridas amigas aqui). Lembro que na época você me mostrava seu jogo de cartas de produção própria, com os devidos encaixes da embalagem milimétricamente construídos com papelão e fita adesiva.

Soube que te amava quando meus pés firmaram no chão e meu pulmão voltou a se encher de ar quando, em algum momento dos últimos dois anos, no auge do caos da pandemia e da minha sobrecarga de trabalho, você me resgatou da frente do computador; me abraçou; disse que se eu precisasse ou quisesse desistir de algum dos tantos pratos que eu estava tentando equilibrar, que estaria tudo bem também. Que lidaríamos com os cacos quebrados juntos.

Sei que te amo quando sinto minha gargalhada nascer no coração e explodir na boca por conta de uma piada contextual que só você é capaz de fazer. Dessas que começam em uma situação corriqueira e encontram seu desfecho só dias depois, em uma referência que só nós dois poderíamos entender.

Sei que te amo porque meus olhos decoraram o caminho dos poucos mais de 20 pelinhos grisalhos que você carrega na barba… porque meu couro cabeludo entra em festa com o seu exclusivo cafuné de piolho… ou porque me sinto abraçada por uma pelúcia, toda vez que temos nossos momentos família com o Valente, nosso filho peludo.


Sei que te amo quando o vento da estrada me invade de independência. Sempre lembro que por trás da autonomia de poder dirigir sozinha, lá esteve você, manhã após manhã, desapegado dos possíveis novos amassadinhos que eu poderia acrescentar ao seu carro. Sempre cheio de paciência, amor e elogios falsos, tão necessários para que eu pudesse me libertar dessa insegurança que me paralisou por mais de uma década. É tão bonito pensar que, por um lado, ser sua par foi justamente o que me tornou mais independente.

Sei também que te amo por conta da sensação de ter minha garganta petrificada toda vez que estamos separados e, por algum motivo bobo, desses que acontecem com todo mundo o tempo todo, perdemos contato por um híato suspeito e eu começo a imaginar se pode ter acontecido algo ruim e se eu posso ter te perdido.


E, principalmente, sei que te amo porque minha mente foi capaz de criar o cheiro e as cores de uma lembrança nunca existente, não aqui, nesse plano: eu te apresentando para minha mãe e ela ficando feliz pela gente.

Então meu amor, no passado pode até ter faltado a tal da paixão à primeira vista e as borboletas no estômago tão disseminadas por aí… Mas hoje eu te amo por meio de todas as metáforas que eu seria capaz de criar.


E eu, Laís, só não prometo te amar por toda a vida, pois aprendi a desconfiar das fórmulas da felicidade. 


Mas eu prometo: te amar, te cuidar e te respeitar na eternidade em que escolhermos estarmos juntos. E hoje, cada pedacinho meu deseja isso para sempre!


8 de outubro de 2021

Que amor temos regado?



Ainda não eram nem namorados, mas ela foi logo arrumando uma forma de soltar em uma conversa casual: “não gosto de ganhar flores”.

Argumentou sobre a falta de praticidade do presente; o projeto monetário por trás do simbolismo das rosas; o cheiro de cemitério. Escondeu, entretanto, o motivo principal, pois tão pouco ainda compreendia: flores eram o símbolo do pedido dramatizado de desculpas de um amor adolescente.

Não queria ganhar rosas pois repelia e somente conhecia a ideia de um amor que se alimentava no ciclo imaturo das reconciliações.

Que o outro errasse, tudo bem! Ela se dá esse direito também. Mas que as desculpas não fossem espetáculos, que o gesto não fosse vazio, que as palavras não fossem públicas e os erros repetidos para que tantas flores precisassem ser colhidas.

Por sorte e merecimento, teve a chance que daquela semente, a sua frente, nascesse um amor tranquilo com toda sua potência de ressignificar memórias, hábitos, inseguranças… confiança. 

“Acho que agora eu gosto de flores”, inseriu mais de 5 anos depois em uma conversa. Disse dessa vez não como quem não quer nada. Pelo contrário,  posicionou com a confiança de quem não tem receio de dizer o que quer, de quem aprendeu que nas relações não cabe não-ditos e adivinhações.

Pois não demorou, ganhou logo um arranjo de Protea - flor símbolo da transformação.

Ao meu amor Luiz, e à relação que cultivamos.


5 de março de 2016

O amor é grude



Hoje pela manhã colei meu dedo com super bonder. E me emocionei. Anos atrás eu mexia com super bonder quase todo dia. Herdei da minha mãe a intromissão no mundo dos artesanatos e vivia entre caixas de madeira, massas de biscuit e tintas. Todo dia eu colava algo e todo dia minha mãe alertava: "cuidado com o dedo". Gabaritada em esnobisse, no auge dos meus 14 anos, eu pensava (e por vezes debochava): "Ahhh que bom que você avisou. Estava mesmo pensando em pingar no olho".


Tenho 25 anos de vida, mais de 5 anos de experiência com super bonder. Mas hoje ela não estava lá, há quase três anos minha mãe não está mais aqui. E, por isso, eu grudei um dedo no outro.

Agora escrevendo, aguardando meu ônibus, vou descobrindo que conto este causo corriqueiro não para que tenham pena de mim: a saudade vai bem, meu dedo também.
É pra contar e, principalmente lembrar a mim mesma, que cuidado é o tipo de carinho que mais faz falta. ~ E que super bonder cola mesmo o dedo. ~

O ônibus vai chegando e eu vou percebendo que poderia dedicar esta reflexão para minha mãe, mas escolho dedicar ao meu amor Luiz e sua habilidade rara de amar e cuidar. Afinal, se estas palavras objetivam ensinar, primeiro eu tive que aprender: o que faz sentido mesmo é valorizar quem está por perto.

É clichê, é conselho conhecido, dá sensação de que a gente já sabe, dá vontade de responder com ironia: mas a gente esquece, e esquecendo se atrapalha, e se atrapalhando se arrepende. 

31 de março de 2015

A chance de compartilhar






Entre as artes, sua escolha sempre foi o lápis e a folha. Eles cabem na bolsa, neles cabem um mundo.

Após amassar e arremessar, toda história escrita é segredo. As curvas do lápis, acompanham a curva do humor – ou do pranto - e após a borracha, todo papel é branco.
Na arte dos riscos, os erros também cabem bem.

Foi por sentir-se tão confortável entre rabiscos que espantou-se quando, no momento que as cortinas se abriram, ela, na plateia, ainda tentando se recuperar do golpe de energia, se deu conta que somente aquele palco a curaria.

Ela... logo ela... A única menina da 3ª série B a ficar de fora do coral. Ela... logo ela... das bochechas mais vermelhas que as próprias cortinas que a seduziam... Ela... logo ela... a profissional dos incontáveis feedbacks “só falta você se soltar”. Ela... logo ela... que repetiu tantas vezes seu nome por falar baixo demais. Ela... logo ela... dona de pés que não obedecem comandos, dona de olhos e sorrisos que só obedecem os próprios sentimentos.

Como cantaria para 8 mil pessoas, se não canta no chuveiro? Como falaria tão alto para todos ouvirem, se se repete ao vizinho? Como emprestaria a expressão para um personagem, se tinha dificuldade de expressar a si mesma no trabalho?

Era tanto medo, que ela teve certeza! Como em um parto prematuro, deixando a sensação de ter sido rápido de mais, há 7 meses atrás, ela encenou pela primeira vez: fingiu-se confortável frente aquele grupo que parecia se conhecer há 7 anos, fingiu-se entendida quando todos sumiram do palco em 7 segundos, fingiu que atirou quando, no sinal 3 do exercício, confundiu-se e, na verdade, espirrou!

Quarta-feira a quarta-feira, sempre uma chacoalhada na rotina, ela foi aprendendo que fingir era infinitamente diferente de atuar! Então ela errou e deixou-se errar! Lá  do palco ela sorriu mesmo no dia em que da plateia, antes da aula, chorou. E não era a expressão de um sentimento que não sentia: no palco, imediatamente o riso se transformava em sua verdade. Todo dia!



Ela, que no início, incomodava-se por aquela gente ter tanta energia, contagiou-se! Pela beleza que era ver as diferenças roubarem a cena. Pela harmonia, que com sua luz própria, permitia que 60 pessoas se organizassem no escuro. Pelo talento de gente que protagonizava na vida, cenas nem sempre tão melódicas, mas que no palco explodia de alegria! Emocionou-se pela vida que ainda virá, carregada no ventre de sua chará. Nem nasceu... e olha tudo que já viveu!

Estreia foi um vocabulário resignificado: impagável a sensação de não conseguir dormir de ansiedade. Incontável o número de vezes que, antes do grande momento, ela girou, pulou e chutou, girou, chutou e pulou, pulou, girou e chutou, girou, pulou, chutou.

Foi especial estar no palco! Só perdeu para a alegria de receber mais de 50 pessoas tão especiais na plateia. E entre tantos reencontros, tantos abraços, tantos elogios, nenhum a deixava mais feliz do que o repetido: “Nunca te imaginei fazendo isso”.


Porque era tanto medo, que ela teve certeza!

14 de junho de 2013

Hoje eu mexi nas suas coisas...


Hoje tive que decidir o que fazer com suas roupas, seus brincos, colares e afins, inclusive aquelas bijouterias que fizemos juntas. Lembrei-me de quando dividíamos o espelho, e de quando você me ensinou a usar o curvex. Quantas vezes já me questionei como alguém tão forte podia ser ao mesmo tempo tão delicada...

     (Quantas coisas mais terei que decidir sem poder te consultar?)

Hoje eu montei um cantinho só seu: com seus livros preferidos, seu diário, seus santinhos, seus cabides revestidos de cetim, suas roupas que recordam nossos momentos felizes. Tem seu perfume também. Deixei poucas coisas, tudo bem? Não é dessa forma que eu irei te guardar, não serão as lembranças mofadas daqui a alguns anos que me farão lembrar você – que sempre foi tão cheirosa.

(Como faz pra preservar o seu cheiro na blusinha verde que eu roubei pra mim? Se eu colocar em um saquinho ajuda? Ou fica com cheiro de plástico?)

Eu vou lembrar de você porque de um jeito ou de outro, você sempre estará comigo. Dizem que somos parecidas. Dizem que somos determinadas, dizem que somos caprichosas, dizem que somos teimosas. Mais do que nunca, eu me sinto muito orgulhosa quando alguém diz que eu espelho alguma qualidade sua. Ficaria feliz até se dissessem que tenho os mesmos defeitos.

(Como eu faço pra também ser corajosa como você?)

Hoje distribuímos seu “santinho” na missa de sétimo dia. Nós que fizemos... Acho que ficou sua carinha... ele forma um livirinho, parece artesanal, não tem aquela tradicional foto de morte, e tem várias fotos que representam a vida! Várias pessoas disseram que você está linda na foto, mas fiquei ainda mais orgulhosa e contente por outro comentário: Disseram que ficou sua cara até na retenção de custos porque eu fiz a arte, uma tia doou as folhas, um amigo a impressão, seu marido e seu filho cortaram e dobraram. Seu tradicional dom de unir pessoas e ideias para atingir um objetivo sem gastar nada (:

(E você? Será que ficaria orgulhosa de mim?)


Três anos e meio digerindo a notícia do seu diagnóstico e aquele nó na garganta que sufocava em leves prestações de impotência ainda não tinham conseguido me preparar para o que eu estou sentindo hoje. Hoje, porque te perder é tão grande que eu acho que só fui entender a dimensão disso, sete dias depois.

     (Será que entendi mesmo?)
Mas hoje também foi o dia que eu recebi de uma querida amiga sua uma mensagem linda... Lemos na sua missa, é de autoria de um santo famoso, mas como esqueceram de citá-lo, várias pessoas acharam que era você que tinha escrito. E podia ter sido mesmo... você sempre escreveu tão bem. Lá dizia para secar minhas lágrimas e que se eu te amasse, então, que não chorasse mais.
(Não é exatamente o que você me diria?)

Pois então, mamãe querida, vida eterna ou amor eterno, dê seu jeito (como sempre deu) e esteja comigo me abençoando e me guiando. Sua caçula vai continuar vivendo porque é somente assim que eu te sinto viva em mim.
(Vem comigo?)

Eu te amo pra sempre e obrigada por tudo.

     (E aqui, não cabem interrogações)



28 de março de 2013

Sobre morangos e amores


 Presenteou assim... sem embrulho, sem cerimônia, sem motivo e sem a menor noção do quanto isto significaria:

- Plantei morangos para você.

   Seu pai, que nunca lembra de datas especiais, a deu nesse dia aleatório o presente mais afetuoso que ela já recebeu. Seu pai que raramente é o primeiro a dizer eu te amo... que nunca faria uma declaração de amor em público, que não compra uma caixa de bombons há uns 25 anos... Seu pai que não sabe uma única letra romântica, que ronca quando convidado para sessões de cinema, que prefere a familiaridade de sua cidadezinha o qualquer outro paraíso na terra.
  O mesmo pai que levanta todo dia de manhãzinha, que prepara todas as refeições em família, que foi bancário e aposentou-se pra tronar-se motorista, massagista, psicólogo, fonoaudiólogo e fisioterapeuta. O pai que respeita sua promessa de companheirismo na saúde e na doença, que estica os lençóis da cama todos os dias, que pinta o cabelo da mãe dela mensalmente... O mesmo pai que esquece datas de aniversários, mas lembra-se dos gostos de toda a família.
  Foi então ela percebeu:
  Existem dois tipos de homens: os que presenteiam buquês de rosas vermelhas e os que plantam morangos. Os que presenteiam rosas vermelhas são apaixonados. Os que plantam morangos sabem amar de verdade.
   Plantar morangos é muito mais difícil do que presentear rosas. Plantar morangos requer cultivo. Só planta morangos quem entende de raízes.
  Existem dois tipos de homens e várias formas de afeto: Ela quer mais uma vez a “sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida.”

18 de março de 2013