17 de março de 2013

Começo, meio e



     
      Sempre fica um cheiro que transporta, uma música que recorda. Sempre há um lugar especial que faz lembrar, e a piada que se ri sozinha porque outrora era compartilhada com uma única pessoa, que hoje é somente recordação. Emociona, tira uma casquinha, mas então você raciocina: tira da manga a defesa e da memória as briguinhas, as manias, o ar denso que respiravam juntos. Obrigada a sua memória a completar a trajetória, porque pra ser história precisa ter começo meio e fim.
     
      E pra ser passado, via de regra, o fim é ruim.
     
      Problema grande mesmo é quando era pra ser futuro.
    
     Qualquer cheiro poderia ser o dele, qualquer música poderia ser a nossa. Imaginação não respeita sinalização. Vai passando, vai criando, vai rasgando.
     Num gesto falso, você tenta retomar o controle e evoca o contrapeso. Irrita-se: não se deu o trabalho de inventá-lo.
     
     E da nada adianta sua experiência em relacionamentos acabados. Você está diante de um relacionamento não começado.
  
     Perderam a hora de tanto adiarem o instante. Seria ainda mais dolorido, não fosse também interessante.

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