31 de março de 2015

A chance de compartilhar






Entre as artes, sua escolha sempre foi o lápis e a folha. Eles cabem na bolsa, neles cabem um mundo.

Após amassar e arremessar, toda história escrita é segredo. As curvas do lápis, acompanham a curva do humor – ou do pranto - e após a borracha, todo papel é branco.
Na arte dos riscos, os erros também cabem bem.

Foi por sentir-se tão confortável entre rabiscos que espantou-se quando, no momento que as cortinas se abriram, ela, na plateia, ainda tentando se recuperar do golpe de energia, se deu conta que somente aquele palco a curaria.

Ela... logo ela... A única menina da 3ª série B a ficar de fora do coral. Ela... logo ela... das bochechas mais vermelhas que as próprias cortinas que a seduziam... Ela... logo ela... a profissional dos incontáveis feedbacks “só falta você se soltar”. Ela... logo ela... que repetiu tantas vezes seu nome por falar baixo demais. Ela... logo ela... dona de pés que não obedecem comandos, dona de olhos e sorrisos que só obedecem os próprios sentimentos.

Como cantaria para 8 mil pessoas, se não canta no chuveiro? Como falaria tão alto para todos ouvirem, se se repete ao vizinho? Como emprestaria a expressão para um personagem, se tinha dificuldade de expressar a si mesma no trabalho?

Era tanto medo, que ela teve certeza! Como em um parto prematuro, deixando a sensação de ter sido rápido de mais, há 7 meses atrás, ela encenou pela primeira vez: fingiu-se confortável frente aquele grupo que parecia se conhecer há 7 anos, fingiu-se entendida quando todos sumiram do palco em 7 segundos, fingiu que atirou quando, no sinal 3 do exercício, confundiu-se e, na verdade, espirrou!

Quarta-feira a quarta-feira, sempre uma chacoalhada na rotina, ela foi aprendendo que fingir era infinitamente diferente de atuar! Então ela errou e deixou-se errar! Lá  do palco ela sorriu mesmo no dia em que da plateia, antes da aula, chorou. E não era a expressão de um sentimento que não sentia: no palco, imediatamente o riso se transformava em sua verdade. Todo dia!



Ela, que no início, incomodava-se por aquela gente ter tanta energia, contagiou-se! Pela beleza que era ver as diferenças roubarem a cena. Pela harmonia, que com sua luz própria, permitia que 60 pessoas se organizassem no escuro. Pelo talento de gente que protagonizava na vida, cenas nem sempre tão melódicas, mas que no palco explodia de alegria! Emocionou-se pela vida que ainda virá, carregada no ventre de sua chará. Nem nasceu... e olha tudo que já viveu!

Estreia foi um vocabulário resignificado: impagável a sensação de não conseguir dormir de ansiedade. Incontável o número de vezes que, antes do grande momento, ela girou, pulou e chutou, girou, chutou e pulou, pulou, girou e chutou, girou, pulou, chutou.

Foi especial estar no palco! Só perdeu para a alegria de receber mais de 50 pessoas tão especiais na plateia. E entre tantos reencontros, tantos abraços, tantos elogios, nenhum a deixava mais feliz do que o repetido: “Nunca te imaginei fazendo isso”.


Porque era tanto medo, que ela teve certeza!

2 comentários:

  1. Maravilloso texto, Laís, en el que describes con belleza inigualable, a modo de metáfora perfecta, todas la sensaciones vividas antes y después de tu debut en escena. Con él han triunfado la fuerza y la ilusión al transgredir el miedo y la incertidumbre que provoca el escenario. Definitivamente has burlado el pavor que suponen las bambalinas. Has derrotado, como auténtico guerrero, los temores que anidaban en ti. Ha triunfado la autoconfianza sobre el recelo al fracaso. No olvides que no existe mejor compañera y amiga que la autoconfianza, porque, a pesar de no estar presente en todo momento, cuando llega nos permite lograr todo lo que antes nos pareció difícil o imposible.
    Este reto que has superado habrá elevado tu autoestima a niveles insospechados y gracias a ella podrás reconocer y disfrutar de todo ese placer que sólo al triunfador le está concedido. Y tú, una vez más, has triunfado.
    Congratulação, parabens!!!

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  2. Sempre me encanto com seus textos e acabo sem palavras logo depois... Parabéns. Por se desafiar, por se soltar e se entregar, por perceber tudo, por compartilhar isso ao vivo com aqueles que te querem bem e por escrever de forma espetacular sobre isso. Parabéns. ;)

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