17 de março de 2013

Engravidou com um abraço


     Era uma tarde de verão. O clima de festa de despedida da empresa, embalado pelo ritmo repetitivo, unia os amigos em círculos de afeto, mas excluía alguém da roda. Sentir-se só em meio a multidões sempre foi uma de suas esquesitices.

     Entediada, afastou-se aos poucos e voltou o olhar para a grama. Foi quando o encontrou: o olhar travesso, o sorriso sincero, os pezinhos no chão. Observou-o confusa. Ele e toda a sua fofura se aproximaram vagarosamente, olhinhos fixos, bateu as mãozinhas rechonchudas no joelho dela e disparou tortuoso pelo gramado, com a inexperiência de quem mal aprendeu a andar e já se mete a correr. Enquanto corria, gargalhava com a inocência e pureza de quem corre em sentido ao pique, como se esse fosse o sentido da vida. Era o filho de uma de suas colegas de trabalho recrutando coleguinhas de parquinho. Talvez ele tenha se enganado quanto a idade de sua escolha, talvez ele simplesmente não se importasse.
     Ela demorou, hesitou, mas entendeu o sentido do toque em seus joelhos. “Comigo não morreu”, era isso que diziam há 19 anos atrás, quando era ela a criança rechonchuda de 3 anos, reinando em um gramado? Não importava, seu adversário de pega-pega nem sabia falar e, provocativo, ensaiava passinhos de olé na sua frente. Prestou-se a correr atrás dele, e logo estava rindo com a mesma verdade.

    Sentiu-se menina. Sentiu-se feliz. Correram em círculos, correram atrás das árvores, correram em volta da piscina, correram em cima dos sofás até que ela sentiu-se exausta. Liberta que estava, atirou-se no chão, braços e pernas estendidos, ventre voltado para o sol.

   Foi então que aconteceu o instante exato da fecundação: inesperadamente a criança, exausta também, aninhou-se em seu colo. Ouvidos no coração, gargalhada terna, nariz melequento. Foi assim que uma criança de três anos fecundou nela a  vontade de ser mãe. Um amor intenso por um serzinho que mal conhecia a levou a sentir algo mais forte ainda, por alguém que ainda nem sequer existe.
   Deitou-se menina, levantou-se mulher. Com gramas no cabelo e o amiguinho nos braços, ela que há alguns minutos atrás havia deixado de ver sentido na festa, aprendeu com uma criança o sentido da vida: o pique-esconde – é lá que a correria pausa e se tem tempo pra respirar e ser feliz.


Um comentário:

  1. Un giorno saprai che ogni donna è matura
    all'epoca giusta e con giusta misura
    E in questa tua corsa incontro all'amore
    ti lasci alle spalle il tempo migliore

    Eu ia colocar a parte traduzida, mas como eles fizeram musica do seu texto, voce sabe que isso significa "Mas um dia saberá que toda mulher amadurece cada uma no seu tempo certo.
    E que na sua pressa para encontrar o amor está deixando de viver o melhor da sua idade." =p

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